domingo, 27 de novembro de 2016

Sagarana

A produção escrita de Guimarães Rosa se caracteriza por dois aspectos fundamentais. Em primeiro lugar, pela tendência a conferir tratamento universal a temas de ambientação regional, quase sempre ligados ao interior de Minas Gerais. Em segundo lugar, pela linguagem inventiva elaborada pelo escritor, e que se tornou sua marca registrada.

A marca regionalista é evidente em Sagarana: as histórias se passam todas no interior de Minas Gerais. Além disso, há muito da cultura mineira na transmissão oral das histórias, veiculadas por contadores de causos, como ocorre entre os vaqueiros de “O burrinho pedrês” e os animais de “Conversa de bois”. Isso sem contar os assuntos abordados, que atendem ao gosto das histórias populares: violência, traição, mistério etc. Muitas vezes, a cultura urbana e civilizada de alguns narradores em primeira pessoa (“Minha gente”, “São Marcos” e “Corpo fechado”) é colocada em xeque, encurralada pela sabedoria sertaneja, mais competente para lidar com os fatos inexplicáveis que se sucedem nas tramas.

Mas sob cada narrativa existe a mensagem transcendental, que alarga as fronteiras locais para alcançar uma dimensão universal. Assim, o tema de “O burrinho pedrês” é a valorização da experiência; em “A volta do marido pródigo”, temos o elogio da esperteza e do senso de oportunidade; em “Sarapalha”, a temática da traição não perdoada; em “Duelo”, a sugestão de que o destino do homem escapa de seu próprio controle.  

Também a linguagem supera sua matriz regional, para fazer-se universal na estilização da fala sertaneja. Esta constitui, de fato, o ponto de partida: a oralidade e o ritmo aludem ao falar mineiro. Mas o estilo vai além: agrega o vocabulário e o ritmo trêmulo da doença em “Sarapalha”; aciona todos os sentidos nas sinestesias de “São Marcos”; e encontra mesmo espaço para a reflexão metalinguística no duelo poético que constitui uma trama paralela em “São Marcos”. O próprio título do livro exemplifica um dos procedimentos linguísticos mais importantes da obra de Guimarães Rosa, o neologismo: ele é formado pela junção da expressão nórdica Saga (= lenda), com a terminação tupi rana (= à maneira de).  

Esse título é bastante feliz, as histórias são contadas “como se fossem lendas”, o que sugere que talvez não sejam. De fato, as narrativas de Sagarana oscilam entre o real e o irreal. Há, inclusive, a fábula de “Conversa de bois”, na qual os animais se comunicam. Tão surpreendentes quanto essas circunstâncias são alguns dos heróis das narrativas, como o personagem-título de “O burrinho pedrês”, os animais de “Conversa de bois” e o anti-herói Lalino de “A volta do marido pródigo”. 

Personagem inesquecível é Augusto Matraga, do último conto do volume. Sua trajetória, da incapacidade de compreender recados místicos até o pleno entendimento dos mistérios da existência, que o leva, no momento da morte, a encarnar a justiça divina de forma inusitada, tornam o personagem figura obrigatória de qualquer antologia da literatura brasileira.

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